Aleatoriamente um toque de poesia
Episódio 1

Fernandinha, gostava daquela praça como quem gosta de um pedaço pequeno de liberdade. Todos os dias ela aparecia por ali no final da tarde, quando o sol já começava a dourar os brinquedos antigos e o vento espalhava folhas secas pelo chão. Sentava primeiro no mesmo banco de sempre, observando as outras crianças correrem.
Ela gostava de observar risadas. Talvez porque a vida tivesse lhe dado poucas.
Os meninos subiam correndo no escorregador. As meninas brincavam de roda, inventavam casinhas de areia e brigavam por motivos que duravam apenas alguns minutos. Fernandinha olhava tudo aquilo com um brilho nos olhos, como quem assiste de longe uma felicidade que ainda não sabe se pode tocar.
Naquele dia, criou coragem.
Desceu devagar do banco e caminhou até perto dos brinquedos segurando apenas sua ingenuidade infantil e uma vontade enorme de pertencer.
Posso brincar também?
Uma menina quase respondeu “sim”.
Mas a mãe foi mais rápida.
Não. Afasta dela.
Fernandinha parou sem entender.
Outra mulher puxou o filho pelo braço e cochichou alto o suficiente para que ela escutasse: já falei para não brincar com menina de rua. Menina de rua...
Aquelas palavras ficaram pairando no ar como algo pesado demais para uma criança pequena compreender. Ela olhou para si mesma tentando descobrir o que havia nela que assustava tanto os adultos. Menina de rua era uma doença? Ficou assustada e amendrotada. Não sabia o que era menina de rua.
Fernandinha ainda era inocente demais para entender que algumas pessoas confundem pobreza com perigo. Então apenas se afastou, com os olhos marejados e pensando ter alguma coisa que pegava como gripe.
Se afastou
Sem chorar na frente deles.
Só carregando no peito aquela tristeza pequena que as crianças sentem quando descobrem que existem lugares onde não são totalmente aceitas.
E o que terá?
Sentou novamente no banco perto das árvores e ficou observando os brinquedos balançando as perninhas no vazio. O vento soprava devagar naquele fim de tarde. E talvez tenha sido ali, naquele silêncio infantil cheio de perguntas, que Deus tenha se sentado ao lado dela. Porque algumas dores da infância não fazem barulho. Elas apenas crescem dentro da alma.
Anos depois, Fernanda compreenderia que o preconceito quase nunca começa nos grandes discursos. Começa nos pequenos afastamentos. Na mão que puxa outra depressa. Na criança ensinada a evitar quem é pobre antes mesmo de aprender o significado da palavra compaixão.
Mas também entenderia algo bonito: quem já foi excluído costuma desenvolver uma rara capacidade de acolher. Talvez por isso eu Fernanda, nunca consiga ignorar pessoas sozinhas.
Porque ainda existe dentro dela uma menininha sentada num banco de praça, olhando outras crianças brincarem e esperando apenas que alguém diga:
Vem! Você também pode brincar.
Fernanda
continua...
Que pena o preconceito que existe e se espalha... Ainda bem Nandinha soube tudo suportar e deu a volta por cima! Estás te preparando para um livro?
ResponderExcluirbeijos, chica
Oi, Fernanda! Boa noite! O termo "menina de rua" ressoa de forma inquietante, ecoando nas mentes sensíveis como uma sombra indesejada. Infelizmente, a sociedade, com suas crenças arraigadas, tende a ver aqueles que habitam as ruas como figuras ameaçadoras. Contudo, a realidade revela que a maioria dessas pessoas navega nas tempestades da vida apenas por falta de opções e oportunidades. Não são seres malignos, mas sim vítimas de um mundo que frequentemente ignora suas lutas. A ignorância e o preconceito, como névoas espessas, obscurecem a visão de muitos, impedindo-os de enxergar a verdade que se oculta por trás das aparências, não é mesmo? Que possamos olhar pra essa gente que sobrevive nas ruas com mais amor no coração e não com pedras na mão. Um fraterno abraço!
ResponderExcluirUm relato doloroso Fernandinha e bem sabemos desta historia real, dos traumas que ficam, do vazio que dilacera o coração. Os seres invisíveis e discriminados pela sociedade, que nos seus carros travam portas e vidros dos seus carros numa sinaleira, pela aproximação de um pedinte. As mães no texto atestam o que disse Mandela, ninguem nasce discriminando outra pessoa por cor, credo ou raça, isto é ensinado.
ResponderExcluirUma boa semana Fernandinha.
Carinhoso abraço.
E difícil superar esse olhar desconfiado por quem não está na "normalidade". Ser "da rua" carrega em si um peso enorme de desconfiança. Se mora da rua, o que será que faz pra sobreviver? Será que rouba? É violento? É difícil quebrar essas impressões, mas teus relatos mostra que sempre a quem olha de forma diferente.
ResponderExcluirFernanda,
ResponderExcluirContinuas a presentear-nos com pedacinhos vividos por ti, em tão tenra idade.
E, a forma como o fazes não só toca-nos profundamente levanta questões pertinentes.
Abraço.
Esta é uma das feridas mais dolorosas da nossa sociedade: o preconceito. Segrega e machuca desde a infância. Assim, o que no início era um refúgio, um pedaço de liberdade, um pouco de alegria, resultou num choque. A menina não assimilou a maldade do rótulo “menina de rua” e confundiu preconceito com doença contagiosa, engoliu o choro e aguentou firme o vazio com o balançar das pernas. Mas a incompreensão e a dor silenciosa deram lugar a uma sensibilidade para enxergar e acolher quem está invisível ou sozinho. A menina carrega uma cicatriz que acolhe representado pelo desejo de ouvir “Vem! Você também pode brincar”, que a menina carrega como missão para dizer para os outros.
ResponderExcluirÉ uma história comovente, mas é também uma lição de vida!
Um abraço, Nanda!